Cultura e Enem 2025: cinema nacional impulsiona repertórios

 Cultura e Enem 2025: cinema nacional impulsiona repertórios

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Jornal a Borda

O tema da redação do Enem 2025, “Perspectivas acerca do envelhecimento na sociedade brasileira”,  colocou em evidência uma pauta urgente: como o país encara o envelhecer e de que forma trata seus idosos. Em uma sociedade que envelhece rapidamente, compreender o tema vai muito além de estatísticas. O cinema brasileiro, com sua sensibilidade e olhar crítico, oferece boas referências para refletir sobre o assunto.

O Último Azul (2025): memória e identidade

Dirigido por Gabriel Mascaro, O Último Azul é ambientado num Brasil distópico, onde o governo decreta que idosos sejam transferidos compulsoriamente para colônias habitacionais, sob o pretexto de garantir-lhes uma velhice “digna”. A protagonista, Tereza de 77 anos recebe esse chamado, mas decide embarcar numa última jornada pela Amazônia para realizar um desejo pessoal, optando pela liberdade em vez da submissão.

O filme questiona, com sensibilidade e crítica, como a sociedade enxerga o envelhecimento. Ele transforma a velhice em território de resistência, reafirmando que idade avançada não significa apagamento, mas pode ser momento de reafirmação de identidade, desejos e autonomia. A arte, nesse contexto, assume o papel de iluminar possibilidades de dignidade mesmo em cenários opressivos.

A Guerra dos Rocha (2008): responsabilidade e afeto familiar

Em A Guerra dos Rocha, direção de Jorge Fernando, a personagem central, Dona Dina Rocha, é uma idosa rejeitada pelos filhos, que a veem como um “encargo” após terem construído suas vidas. O filme aborda, de forma crítica e por vezes bem-humorada, a realidade de muitas famílias brasileiras: a resistência (emocional e financeira) em assumir os cuidados com os pais idosos.

A comédia, ao tornar aquela dinâmica familiar visível, convida à reflexão sobre responsabilidade, afeto e o direito dos idosos à dignidade, companhia e pertencimento. É um alerta sobre como negligência e egoísmo podem invisibilizar vidas que já viveram e merecem respeito, cuidado e valorização.

Chega de Saudade (2008): amor e autoestima na terceira idade

No filme Chega de Saudade, de Laís Bodanzky, a ação se passa em uma única noite de baile num clube de dança em São Paulo, onde diferentes personagens , de variadas idades, se cruzam entre música, dança, lembranças, afetos e desejos.

Embora o filme não trate exclusivamente da “terceira idade”, ele celebra a vida madura, as dores, as nostalgias, os encontros, os afetos e o desejo por companhia. Mostrando que a idade não define o desejo de viver, amar, socializar. Nesse sentido, o filme contribui para desconstruir a ideia de que envelhecimento significa apenas declínio e isolamento.

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O Outro Lado da Rua (2004): solidão e pertencimento

Em O Outro Lado da Rua, dirigido por Marcos Bernstein, a protagonista Regina, de 65 anos, vive sozinha e enfrenta a solidão cotidiana. Participando de um programa comunitário de vigilância, acredita ter testemunhado um crime, e decide provar que estava certa. A trama revela como o envelhecimento pode trazer invisibilidade social, isolamento e sentimento de inutilidade, mas também como a busca por sentido, pertencimento e ação pode reacender dignidade e autoestima.

O filme nos lembra que a velhice não precisa ser sinônimo de abandono ou apatia: com empatia e atenção, a sociedade pode oferecer espaço para voz, protagonismo e renovação, mesmo em idades mais avançadas.

Cultura e conscientização caminham juntas

Essas produções brasileiras ajudam a compreender o envelhecer de forma plural, com humor, sensibilidade e crítica social. Além de inspirar estudantes na redação do Enem, os filmes funcionam como espelho de uma sociedade que precisa repensar seus valores diante do crescimento da população idosa.

De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Brasil terá, até 2030, mais pessoas com 60 anos ou mais do que crianças. Esse dado reforça a necessidade de políticas públicas e iniciativas culturais que valorizem o idoso, garantindo dignidade e participação social.

Leis que protegem e valorizam o idoso no Brasil

Para além da arte e do debate acadêmico, o país possui uma série de leis que asseguram direitos fundamentais à terceira idade:

  • Estatuto da Pessoa Idosa (Lei nº 10.741/2003): garante direitos à saúde, transporte gratuito, prioridade em atendimentos, convivência familiar e proteção contra qualquer forma de negligência ou discriminação.
  • Política Nacional do Idoso (Lei nº 8.842/1994): estabelece diretrizes para a promover a autonomia e integração social das pessoas idosas.
  • Constituição Federal (artigo 230): determina que a família, a sociedade e o Estado têm o dever de amparar as pessoas idosas, assegurando sua participação na comunidade e o respeito à sua dignidade.

Esses marcos legais reforçam que envelhecer é um direito de todos e que o cuidado com a terceira idade deve ser compartilhado entre o poder público, as famílias e a sociedade civil.

Mais do que um tema de redação, o envelhecimento é um compromisso coletivo com o futuro.

Letícia Lima Laurino dos Santos

2 Comments

  • Muito interessante o texto, realmente foi muito assertivo esse tema sobre envelhecimento no Enem, o qual foi difundido na parada LGBT+ de São pela Associação da Parada do Orgulho LGBT de São Paulo, como tantas outras que seguiram esse.

    Isso faz com que ONGs como a EternamenteSou que também atua em prol do bem-estar da população LGBT+ idosa oferecendo serviços e projetos focados no atendimento, também seja lembrada e que possamos apoiar cada vez mais os ecossistemas que protegem e atuam em prol de uma velhice melhor 🏳️‍🌈🏳️‍⚧️🙏.

  • As matérias realizadas acerca do Envelhecimento revela e nos trás uma preocupação do quão é importante envelhecer bem. Há necessidade de polticias públicas que funcionem para que o velho, idoso tenha mais qualidade de vida
    Muito importante que o cinema brasileiro esteja levantando este assunto e muito mais importante é cair no ENEM.
    Parabéns pela assertividade

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