BBB26 e o assédio que muitos insistem em não ver

 BBB26 e o assédio que muitos insistem em não ver
Jornal a Borda

Casos de assédio e abuso raramente se apresentam de forma explícita ou violenta. Em geral, surgem de modo sutil, progressivo e ambíguo. Por essa razão, muitas mulheres demoram a reconhecer que estão sendo vítimas. Nesse contexto, o episódio recente do BBB26 trouxe esse debate à tona ao expor reações que parte do público classificou como “passividade”, “confusão” ou “contradição”. Nas redes sociais, a vítima passou a ser questionada com comentários como “mas não deu pra ver no vídeo”; “no vídeo, eu não vi nada demais”. Ao mesmo tempo, após a saída do agressor, alguns participantes do programa relataram sentir pena dele.

Em uma conversa, Cowboy, aliado de Pedro, afirmou: “Eu não deixo, de maneira nenhuma, de condenar. É terrível o que ele fez. Mas tenho pena…” Sarah concordou com Cowboy “Também tenho… Um menino novo, construindo uma família, uma mulher que deve gostar dele…”. A atitude dos participantes em demonstrar compaixão após um caso grave gerou reações, com o público e nas redes sociais divididos sobre a fala dos brothers. Outro “fenômeno” que ocorreu nesse caso foi a tentativa de justificar o comportamento do agressor “patologizando” o comportamento. A tentativa de “diagnosticar” o comportamento do agressor, tratando a violência como fruto de transtorno, descontrole emocional ou sofrimento psíquico é especialmente grave, pois desloca a responsabilidade do ato, dilui a noção de crime e contribui para a impunidade, além de estigmatizar indevidamente a saúde mental.

Por que o abuso nem sempre é reconhecido

Do ponto de vista psicológico, situações de assédio ativam respostas automáticas de sobrevivência. Além da luta ou da fuga, existe a resposta de congelamento. Nesses casos, a pessoa paralisa, fica confusa e tem dificuldade de reagir ou nomear o que está acontecendo. Portanto, não se trata de escolha, fraqueza ou consentimento. Trata-se, sim, de uma resposta neurobiológica diante de ameaça e estresse.

Somado a isso, há um fator social determinante. Mulheres são educadas para evitar conflitos, minimizar desconfortos e duvidar da própria percepção. Quando a violência não corresponde ao estereótipo do ataque explícito, surgem questionamentos internos recorrentes: “Será que foi exagero?”, “Será que eu entendi errado?”, “Será que dei abertura?”. Esse processo, contudo, não é individual. Ele é aprendido e profundamente enraizado.

No contexto do BBB26, a exposição amplia ainda mais esse efeito. Estar sob câmeras, pressão social, julgamento público e dinâmicas de poder dificulta o reconhecimento do abuso. Por isso, exigir reações imediatas, firmes e pedagógicas de quem vive a situação em tempo real é uma expectativa injusta e irreal.

Diante desse cenário, especialistas reforçam que o foco precisa estar na conduta abusiva, e não na reação da vítima. Quando a resposta da mulher é colocada sob suspeita, enquanto o comportamento do agressor é relativizado, reforça-se a cultura que normaliza o assédio e silencia vítimas.

Assédio não é só físico

Além disso, o abuso e o assédio assumem várias formas. Podem ser sexuais, psicológicos, morais ou simbólicos. Nem sempre envolvem contato físico. Comentários invasivos, insistência após negativas, toques “disfarçados”, convites reiterados, chantagem emocional, exposição pública e uso de posição de poder também configuram violência. Nessas situações, o principal é priorizar a própria segurança, buscar apoio e, quando possível, registrar o ocorrido. Ainda assim, não existe uma reação certa. Cada mulher responde conforme suas condições emocionais e contextuais.

Nesse sentido, relatos frequentes ajudam a compreender essa realidade. “Na hora eu ri, mas cheguei em casa me sentindo suja.” “Só percebi que era assédio quando contei para alguém.” “Achei que o problema era eu por não saber reagir.” Essas falas, em conjunto, revelam um padrão: o abuso confunde, silencia e desloca a culpa para quem sofre.

Violência contra a mulher em Osasco

No âmbito local, os números confirmam a gravidade do cenário. Em Osasco, dados municipais indicam que 46% dos registros de crimes contra a pessoa envolvem violência contra mulheres. Esse índice evidencia a centralidade do problema na rotina da segurança pública do município.

Embora não haja dados municipais detalhados por raça, estudos regionais apontam que a violência atinge de forma mais intensa mulheres em contextos de maior vulnerabilidade social. Como resposta, a cidade implementou ações como a Ronda Guardiã, voltada à proteção de mulheres em risco, e aprovou a Lei Municipal nº 5.332/2024, que obriga a divulgação do Disque 180 em estabelecimentos públicos e privados.

Além disso, pesquisas realizadas por organizações de saúde na atenção primária indicam que até 76% das mulheres atendidas em Osasco já vivenciaram algum tipo de violência ao longo da vida, sendo mais da metade relacionada à violência física ou sexual. Esses dados locais, por sua vez, acompanham a tendência nacional de aumento dos registros de assédio, abuso e tentativas de feminicídio, especialmente em contextos de desigualdade social e racial.

“Eu só fui entender depois”

Nesse contexto, em relato à reportagem, uma mulher que preferiu não se identificar descreve situações que só mais tarde conseguiu nomear como assédio. “No trabalho, meu chefe sempre me oferecia carona e me convidava para jantar. Eu ficava desconfortável, mas não entendia aquilo como assédio. Quando sentava ao meu lado para falar de trabalho, sempre sentava encostando as pernas em mim”, conta.

Em outra ocasião, um colega ofereceu carona e tentou beijá-la ao chegar ao destino. “Eu disse que éramos só amigos, mas ele insistiu e acabou me beijando. Eu não queria, mas não soube dizer não. Acho que senti que precisava retribuir pela carona.”

A violência também atravessa memórias da infância. “Eu devia ter seis ou sete anos. Estava sentada na calçada brincando com meu irmão quando um homem se aproximou fingindo entregar um panfleto. Ao estender o papel, passou a mão em mim. Fiquei com medo e saí correndo.” Situações como essa, muitas vezes silenciadas por anos, deixam marcas profundas e difíceis de nomear, especialmente quando acontecem tão cedo.

Já na adolescência, a violência assume outras formas, acompanhada de culpa e confusão. “Nunca gostei de usar roupa curta, mas em um dia específico usei um short bem curto para sair e um vizinho começou a andar atrás de mim, me alcançou, me convidou para ir a um lugar retirado e me abraçou, tentando me puxar para um local mais afastado. Passei muitos anos me culpando por causa da roupa que eu estava usando naquele dia. Só hoje, adulta, consigo entender que a culpa nunca foi minha, nem da minha roupa.”

Hoje ela entende que o silêncio e a falta de reação não foram consentimento. Foram, na verdade, respostas ao medo, à hierarquia, à socialização feminina e à violência precoce. Essa é uma realidade comum a muitas mulheres, que só conseguem reconhecer o abuso depois, quando as marcas emocionais já estão presentes.

Identificar, falar e denunciar

Por isso, falar sobre isso é fundamental. Não apenas para analisar casos isolados, mas para ampliar a compreensão coletiva de que o abuso nem sempre é evidente. Muitas vezes é confuso, silencioso e só se revela com o tempo. Reconhecer essa dinâmica é um passo essencial para romper o ciclo de culpa, silêncio e invisibilização da violência contra mulheres.

Identificar o assédio nem sempre é imediato. Além disso, isso não invalida a experiência de quem sofreu. Desconforto persistente, medo, confusão, culpa ou vontade de se afastar já são sinais de alerta. Falar sobre o que aconteceu com alguém de confiança ajuda a nomear a violência e romper o isolamento. Quando for possível e seguro, busque canais institucionais como o Disque 180, serviços de saúde, assistência social ou delegacias especializadas.

Por fim, casos como o de Pedro no BBB26 evidenciam um problema estrutural: a recorrente impunidade dos agressores, que muitas vezes seguem sem responsabilização clara enquanto a conduta abusiva é relativizada, questionada ou diluída no debate público.

Edina Schimitz

Psicóloga e redatora no Jornal Aborda. Escrevo a partir do encontro entre a escuta e a palavra — onde o sentir ganha forma e sentido.

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