Capoeira, território e pertencimento em Osasco
Entrevista pingue-pongue com o mestrando Flavinho
O som do berimbau ecoa como chamado. Quando a roda se forma, o chão vira território de memória, resistência e encontro. Em Osasco, cidade marcada por migrações, periferias pulsantes e disputas por espaço, a capoeira segue existindo muito além do jogo: como cultura viva, ferramenta de inclusão e construção de pertencimento.
Nascido e criado na cidade, o capoeirista Flávio da Silva Dantas, o Flavinho, cresceu dentro de uma academia de capoeira no Jardim Bela Vista e carrega a prática como herança familiar e compromisso coletivo. Em conversa com o jornal A Borda, ele fala sobre sua trajetória, os desafios de manter a capoeira ativa nos espaços públicos de Osasco, o papel social da roda e a importância de valorizar uma cultura que nasceu da resistência negra e segue transformando vidas na periferia.
Como a capoeira entrou na sua vida e em que momento ela virou parte da sua identidade?
No começo, era só diversão. Eu ia como quem vai passear, encontrar os amigos e brincar de capoeira. Com o tempo, fui crescendo e experimentando outras modalidades, como boxe chinês, jiu-jitsu, muay thai, entre outras. Mas, depois dos 19 anos, decidi ficar apenas com a capoeira e deixei as outras como treinos paralelos. A partir dali, passou a ser parte de quem eu sou.

A capoeira ensina coisas que vão além do jogo? O quê?
Ensina muito mais do que a gente imagina. Em cada fase da vida – e da capoeira – aprendemos coisas diferentes. Na infância, por exemplo, melhora a parte cognitiva, a coordenação motora, o reflexo, a força e, principalmente, o apoio educacional e o aprendizado de viver em coletividade.
O que significa praticar capoeira em Osasco hoje, especialmente nos espaços públicos da cidade?
Há 17 anos ministro aulas em uma associação e em um instituto, ambos com trabalho social. Nunca tive apoio público nos meus projetos, nem financeiro nem estrutural.
Sinto muita falta de um espaço público voltado para a capoeira em Osasco, para organizar eventos e rodas, como já existem em outras cidades. Esses incentivos fazem muita diferença para fortalecer a cultura.

Você sente que a capoeira ajuda a criar laços e pertencimento na periferia de Osasco? Como isso acontece na prática?
A capoeira nasce com pessoas de menos recursos. Mesmo hoje estando no mundo inteiro, segue presente em quase todas as comunidades carentes como ferramenta de inclusão social. Ajuda a tirar crianças e jovens das ruas, leva esperança e faz um papel que muitas vezes o poder público não consegue fazer: acompanhar, disciplinar e mostrar caminhos. A capoeira abre uma gama de possibilidades para o futuro dessas crianças.
Como mestrando, o que você sente que precisa transmitir para quem chega à roda, principalmente jovens e crianças?
Não sou muito vinculado a títulos. O que importa é o trabalho, o compromisso com a capoeira e com o esporte. Hoje, com o vício em celulares, é muito difícil “pescar” uma criança para o esporte. Tento mostrar que a vida é feita de pessoas e momentos reais, que é bom correr, pular, brincar, cair e levantar. Que é bom treinar, suar e se divertir sem estar com uma tela na mão.

Gostaria de deixar alguma mensagem final?
Gostaria que os brasileiros estudassem mais a própria cultura e entendessem o que realmente é a capoeira, sem rotular pelo achismo ou pelo que ouviram de alguém. A capoeira não é religião, é esporte e inclusão social. Todos podem praticar, sem distinção de classe social, religião, posição política ou lugar de nascimento. Ela está no mundo inteiro, e não podemos permitir que seja mais estudada, apoiada e valorizada fora do Brasil do que no nosso próprio país.
A capoeira segue viva em Osasco graças a mestres, mestrandos e educadores que mantêm projetos, rodas e aulas, muitas vezes sem apoio público, mas com forte vínculo comunitário. É nesse contexto que o mestrando Flavinho desenvolve seu trabalho na cidade. Atualmente, ele ministra aulas de capoeira nos seguintes espaços:
- Associação Camila Rossafa – Jardim Conceição, Osasco
- Instituto MC Gume – Cidade das Flores, Osasco
Além desses locais, a prática também ocupa praças públicas e centros comunitários de Osasco, onde rodas se formam como ato cultural, educativo e de resistência.
Participar de uma roda é também uma forma de apoiar a cultura local, fortalecer o direito à cidade e manter viva uma tradição que atravessa gerações, no corpo, no canto e no chão da periferia.