Universidade pública: a porta está mais aberta — e a escola pública já é maioria na USP

 Universidade pública: a porta está mais aberta — e a escola pública já é maioria na USP

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Jornal a Borda

Por Nahiana Marano

Por muito tempo, o senso comum repetiu que universidade pública era “lugar de elite”. No entanto, os números mais recentes mostram outra coisa. E mostram com clareza.

Em 2025, a USP recebeu 10.803 novos estudantes. E, desse total, 53,5% vieram de escolas públicas. Ou seja: a escola pública já é maioria entre os ingressantes da maior universidade da América Latina.

Além disso, a USP divulgou outro dado importante: em 2025, 28,3% dos ingressantes se autodeclararam pretos, pardos e indígenas. É um indicador de diversidade que ajuda a entender o tamanho da mudança.

Mais portas de entrada, mais gente chegando

Esse avanço não caiu do céu. Ele tem relação direta com as portas de ingresso que se consolidaram nos últimos anos.

Hoje, a USP recebe estudantes principalmente por três caminhos: Fuvest, Enem-USP e Provão Paulista (em parceria com a Secretaria de Educação do Estado). Assim, não existe mais um único funil.

Em 2025, a distribuição foi a seguinte:

  • Fuvest: 7.814 vagas;

  • Enem-USP: 1.535 vagas;

  • Provão Paulista: 1.454 vagas.

Pode parecer detalhe, mas não é. Na prática, quanto mais caminhos existem, mais perfis conseguem chegar.

Provão Paulista: caminho mais direto para quem está na rede estadual

O Provão Paulista virou uma peça central nessa virada. E os números de 2026 mostram o tamanho da política.

Estão previstas 15.717 vagas pelo Provão Paulista, distribuídas assim: 1.500 na USP, 934 na Unesp, 327 na Unicamp, 10.000 nas Fatecs e 2.956 na Univesp. Além disso, há vagas que começam no segundo semestre, especialmente em Fatecs e Univesp.

Dessa forma, o estudante da rede estadual não depende apenas do vestibular tradicional. Ele ganha uma rota própria — e isso muda o planejamento, principalmente para quem não tem dinheiro para cursinho.

Osasco tem um trunfo: UNIFESP e ensino federal na cidade

Osasco também tem uma vantagem concreta: o campus da UNIFESP na cidade oferta cursos como Administração, Ciências Contábeis, Ciências Econômicas e Relações Internacionais.

Aqui, vale lembrar um ponto objetivo: por ser universidade federal, a UNIFESP aplica a Lei de Cotas (Lei 12.711/2012), que reserva 50% das vagas para estudantes que fizeram todo o ensino médio em escola pública, com subdivisões por renda e recorte racial conforme critérios legais.

E, para 2026, a própria UNIFESP divulgou que oferta 3.129 vagas no SiSU, sendo 1.578 destinadas à reserva de vagas prevista na lei.

Ou seja: não é “favor”. É regra.

E as Fatecs? Não é cota, mas ajuda — e muito

Na Fatec, o mecanismo é diferente. Em vez de cotas nos moldes federais, existe o Sistema de Pontuação Acrescida, que oferece bônus para quem estudou em escola pública e/ou se autodeclarou afrodescendente.

Além disso, o Centro Paula Souza já destacou que esse sistema beneficia uma parcela grande dos aprovados. Na prática, é mais uma política que empurra a porta para o lado certo.

Entrar é só metade do caminho: e para ficar?

Aqui tem um ponto que quase sempre fica de fora, mas pesa muito para quem vem da periferia: permanência.

Na USP, por exemplo, existem políticas de apoio que incluem moradia e auxílios. Segundo o Jornal da USP, o programa (PAPFE) atende cerca de 16 mil estudantes, com vagas em moradia, auxílios integrais e, além disso, alimentação gratuita nos restaurantes universitários para estudantes inscritos.

Esse tipo de informação muda a conversa. Porque não basta passar. É preciso conseguir atravessar o curso.

Qualidade também entra na conta

Além do acesso, existe outra pergunta que volta e meia aparece: como anda a qualidade do ensino?
No caso de Medicina, o Enamed (avaliação nacional do MEC) reacendeu esse debate. Uma análise baseada em microdados apontou que estudantes de universidades federais superaram os de instituições privadas em 85 de 90 questões válidas (94%). Vale lembrar que pela lei de cotas, metade das vagas dos cursos são ocupadas por alunos de escola pública.

No fim, a mensagem é direta: a universidade pública não é mais uma porta trancada com cadeado. Ela continua exigente, claro. Mas hoje tem mais chaves circulando.

Nahiana Marano

É graduada e mestre em Direito, atua na Consultoria Técnica Legislativa da Assembleia Legislativa do Ceará, com foco em direitos humanos. Já integrou a coordenação de direitos humanos da UNILAB e foi suplente da presidente da Comissão de Estudos sobre Violência de Gênero na instituição. Autora de artigos acadêmicos, une experiência técnica e compromisso social.

6 Comments

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